Quando foi a última vez que você sentiu fome?


FOME. Quando foi a última vez que você sentiu fome? A sensação de vazio no seu estômago, o corpo pedindo nutrição. Neste momento você nem pensa no tipo de prato desejado, mas sim no alimento que irá satisfazer a vontade física. Lembra como é? Poucas pessoas* se permitem esperar a reação natural do organismo, antes disso já imaginaram exatamente como será o prato da próxima refeição.

“A boca é utilizada como instrumento atenuador de desamparo”, explica o psicanalista Flávio Gikovate**. Quando a mãe está atarefada ou não sabe mais o que fazer com o bebê, uma das alternativas mais usadas é: dar o peito ou mamadeira. O cérebro registra: comida me acalma. O vazio emocional pode, inclusive, quando adultos, dar a mesma sensação física de fome.

Mas, não é só por isso que comemos sem parar. “A nossa relação com a comida é um microcosmo exato da nossa relação com a própria vida”, Geneen Roth, autora do livro Mulheres, comida e Deus. Quem come compulsivamente ou mesmo quem não pensa na hora de se alimentar e nem se permite ter a fome, está em busca de algo: paz, sossego, aconchego, esquecer de um dia ruim, prazer. “Coincidentemente”, tudo emocional. Mas, muito comumente, acabam encontrando: ganho de peso em excesso, problemas digestivos, doenças crônicas etc.

Buscam então uma dieta ou um médico padrão, este acaba passando uma dieta de qualquer jeito mais um remédio. Funciona? Segundo um estudo sobre a eficácia das dietas realizado pela Universidade da Califórnia, em 2007, 83% das pessoas participantes ganharam mais peso do que haviam perdido em menos de 2 anos. Já os remédios têm como função ser paliativo e transitório, portanto não resolve o x da questão.

Nada físico funciona porque não é uma questão de peso, ser magro ou conseguir comer doces sem passar mal. Isso tudo é uma idealização de futuro, uma ótima forma de fugir do presente. O que vai acontecer com sua vida se você parar de comer a cada hora? O medo maior é este: o amanhã não ser exatamente como gostaria mesmo comendo melhor.

São dois pontos para refletir sobre fome. O primeiro é a atenção plena, você pode estar comendo demais ou sem se permitir ter fome por não prestar atenção ao presente. Comer trabalhando, assistindo televisão, mexendo no celular ou escolher a comida conversando são gatilhos para o excesso de comida. Concentre-se no seu prato na hora da refeição. O quanto estou antecipando meu tempo no dia a dia? Estou vivendo o momento presente?

O outro é o emocional. Preencher o prato em busca de solucionar o vazio do coração, para fugir da solidão, do passado e do futuro, do trabalho estressante, do relacionamento abusivo, da família complicada e por aí vai. Basta um pequeno motivo se você estiver emocionalmente frágil. Do que você tem medo? Como este medo está te atrapalhando?

Se não conseguir solucionar sozinho, busque ajuda profissional: terapia, coaching, terapias complementares e até mesmo yoga. <3

*Me refiro, claro, entre quem tem acesso a alimentos.

**In memoriam

Foto capa: Thomas Kelley